21 de junho de 2013

O gigante acordou, e vai tomar o que de café da manhã?

Ainda muitos não entendem porque o povo brasileiro toma as ruas. “Não há uníssono”, reclamam. “Não há organização”, completam. Eles estão certos. No entanto essa característica não é o defeito da movimentação política recente, mas sua força. Xico Sá se colocou, bem ao seu modo, sobre isso e eu também o farei.

A última vez que o povo brasileiro se mobilizou de modo próximo ao que vemos hoje ­­– ainda que em menor escala – foi há décadas. Não há um know how neste âmbito. Somos desacostumados. Por isso, diz-se que “o gigante acordou”. Pois no Brasil não se coloca a boca no mundo como é feito na Argentina, ou na França. Pelo contrário, até pouco tempo atrás o modo operante do brasileiro era o resmungo abafado. A insatisfação pouco via a luz do dia, indo direto para o arquivamento interno.

Eis a razão do nosso discurso difuso. Foram abertas nossas gavetas. Quando Pandora abriu a caixa os males não saíram de lá ordenadamente, em fila, um a um. Pois bem, é o que acomete o povo. Somos a caixa e os erros políticos que colecionamos os males. Esse vociferar desordenado é apenas a fase inicial da politização. Afinal, ninguém nega que a manutenção deste posicionamento pluralista é ineficaz. É preciso elencar queixas claras para que as soluções possam ser elaboradas.

É importante, porém, compreender que as manifestações têm o tamanho atual por dois fatores: a violência policial que causou revolta em todos e, justamente, a insatisfação generalizada com atos políticos que figuram na história recente brasileira. Os protestos são enormes, pois não são seletivos. Aceitam no seu cerne todo tipo de insatisfação. O importante é sair do sofá; é ler os textos e compartilhá-los; é cantar junto os jingles. Para participar, basta acordar.

Outro trunfo dos protestos é seu caráter apartidário. Nas ruas lutava-se e luta-se por direitos, por abatimentos de tarifas, por questões universais. Não se trata de uma crítica a um ou outro partido, ou a um ou outro político. Critica-se o sistema como um todo. O jovem perdeu a crença na democracia representativa como é feita hoje, especialmente no Brasil. Apartidarismo e despolitização não são sinônimos. A tomada das ruas é uma prova ensimesmada. Lá, cada homem representa a si e ninguém mais. Por isso, cada um carrega um cartaz com sua temática individual.

Ainda assim há um fator único, que une: a esperança. Afinal, não luta quem não acredita numa alternativa melhor. E quem fala disso com mais capacidade que eu é Eduardo Galeano.



Mas o povo brasileiro é inexperiente nessa coisa de ter voz. Estamos aprendendo na prática. Os jovens de hoje, os famosos millenials, são também inexperientes quando a exigência é ser coletivo. Já foi muito discutido o assunto: o mundo todo hoje é mais individualista do que jamais fora. Talvez por isso me incomodem as falas preconceituosas, que visam determinar quem pode ou não integrar os protestos. “Coxinhas que nem pegam ônibus”, reclamam alguns ­– esses sim, despolitizados. “Alienado, até ontem não sabia nem quem era o vice-presidente, agora está protestando”, dizem alguns narizes torcidos. Basta de apedrejar as boas atitudes. Se fica de fora, é errado, se atua também é errado? Hipocrisia.

Eis que a população brasileira acordou, em todos os seus níveis. Gente de todas as condições financeiras e de todos os graus de escolaridade tomaram as ruas. Ocuparam as mídias sociais. Sobre o asfalto reina uma maioria pacífica – e Boechat que me perdoe, nada justifica a violência. Online, pipocam os textos grandes, enormes, e ainda assim lidos. A atualização é frenética e em termos de assuntos, a minoria virou maioria. Todos falam de política e de economia -- tópicos rejeitados anteriormente. Há crítica, mas há também busca de soluções. É um verdadeiro flood, mas ninguém mais reclama. Não disso. Todos querem saber. Quanto mais postagens, melhor.

A cada dia mais gente abre o bico e veste o tênis. Pelas ruas vê-se união de diferentes, afinal, compartilham uma semelhança: são compatriotas. Duas: a esperança a qual me referi antes. Revolta é fé; passividade é desistência. Pelo Brasil, os testemunhos são inspiradores: é feminista assinando petição contra a PEC 37, é mãe lutando contra o Estatuto do Nascituro, é PM borrifando água no lugar de spray de pimenta e arriscando ser preso. Caíram os rótulos. A manifestação é apartidária, é além-regionalismos, é um aflorar tardio complexo, tecido por várias mãos. É finalmente uma definição abrangente: somos brasileiros. Por isso o povo vem bradando pelas ruas ter orgulho de ser brasileiro apesar de tudo.

É tão bom ver as pessoas envolvidas, por questões mil. Cantando o hino nacional além dos 90 segundos da gravação. Querendo mudança. E não parando de sair de casa porque ganharam migalhas. Querendo mais, muito mais -- mesmo que ainda de modo humilde, querendo nada além do que merecem. Lindo é ver as pessoas levando política e economia para a mesa do bar, para o trabalho, para a fila do banco. E com argumentos e conhecimento cada vez mais relevantes. Estamos no caminho certo, finalmente.

Ainda assim cabe limpar o foco, claro. É uma segunda fase no desenvolvimento e engajamento político dos jovens inexperientes. Já vejo aparecerem pela internet listas de prioridades para os próximos protestos. Os eventos estão começando a dividir-se por temas. Depois da revolta emocional, a revolta intelectualizada. Essa é a ordem. Sempre foi, humanos reagem assim. Primeiro o sistema automático do cérebro, depois o pensamento mais refinado. É injusto exigir maturidade cívica logo de cara. O povo brasileiro, de modo geral, já havia tirado do peito a insígnia de cidadão. A solução é ter paciência e didática. Se você julga-se capaz, tome a liderança, seja nosso professor. Aprendemos rápido.

Vamos em frente. O gigante acordou, e vai querer o que nesta manhã?


Quanto mais alto, maior a queda

O cenário é, a meu ver, alegre. Promissor. No entanto há perigo na esquina. Recentemente os protestos tem se tornado mais violentos, e não falo da ação da PM. Grupos de manifestantes permitiram que o poder subisse à cabeça. Alguns transformam apartidarismo em anti-partidarismo, chegando a agredir pessoas que assumem para si um viés político. Isso é inaceitável. Ontem mesmo, skinheads bateram em pessoas aleatórias simplesmente por portarem uma vestimenta vermelha. A vandalização tem feito vítimas diversas: edifícios oficiais, vagões de trens, lojas, bancos e até a Catedral de Brasília. Pior, até pessoas.

Outro grande perigo é esse povo recém-engajado virar massa de manobra de gente politizada mais experiente. Seja da direita, da esquerda ou até de grupos mais intensos: ditatoriais, anarquistas e ufanistas.

Nesta quinta-feira, dia 20, viu-se um nacionalismo transvestido pelas ruas. O utopismo é um perigo que precisa ser evitado. Afinal, não é possível propor soluções reais para demandas irreais. "Daqui a pouco tem protesto pela intervenção militar no poder executivo, já que nada mais da certo", disse uma amiga, Giulia Lanzuolo, que já não participa mais das manifestações.

"E outra: muitos benefícios de hoje foram conquistados por militantes e por bons políticos. Foi trabalho de partidos. Agora, pessoas que nunca haviam se mobilizado se sentem no direito de hostilizar gente partidária como se fosse crime.", completou ela com seus medos, dos quais compartilho.

Apesar de toda a insatisfação de muitos com o atual governo, creio que pedidos de impeachment são também descabidos. Nossos problemas não são pontuais. Como já disse, a descrença é no sistema. Portanto é preciso fazer com que os políticos eleitos trabalham de acordo com aquilo que seja o mais próximo da justiça. Afinal, se a Dilma cai quem se ergue e assume o trono é Michel Temer. É isso que queremos? Cabe ponderar um pouco mais.

Nesta sexta-feita e sábado, dias 21 e 22, haverão protestos direcionados. O primeiro contra a tal "Cura Gay" proposta por Feliciano, e o outro contra a PEC 37, que visa impedir que o Ministério Público se envolva em investigações. Vejamos como se desenrola.

Talvez a hora de esvaziar as ruas esteja próxima. Não quero com isso sugerir que a política e a economia voltem à senzala. Penso apenas numa mudança de atuação, até porque, como prevê o sociólogo Francisco Oliveira, a onda de protestos não durará para sempre. Chega então a fase três, onde a proposta é manter-se engajado de casa. A primeira premissa é buscar sempre informar-se, mais e mais. Depois cabe tomar as devidas medidas politicamente corretas: assinar abaixo-assinados, escrever cartas, publicar textos e entrar em contato direto com os órgãos públicos se for o caso. Quem sabe até se unir a um partido. Ou não.

O importante é manter sempre a atenção e o respeito.
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